24/06/2014

Fly Away


Diferentemente de todas as outras vezes, desde que se conheceram, Sophia permanecera quieta durante todo o tempo em que estiveram ali. Nem mesmo as relíquias do antigo reino egípcio foram capazes de devolver a seus olhos o brilho que se acendia quando estava envolta por história do mundo.
Vincent estranhara o comportamento da namorada, mas preferira não aborrece-la. Afinal, tinha algo importante a dizer durante o jantar daquela noite.
Sophia passara a tarde coletando na memória as melhores imagens e sensações que aquele lugar lhe trazia. Era sua despedida, não eterna, mas ainda assim uma despedida, daquele ciclo de sua vida.
Quando alcançaram a entrada principal do museu, a luz do sol poente deitava-se alaranjada sobre tudo que tocava, inclusive os negros cabelos da moça, já dando lugar a escuridão da noite.
Caminharam por alguns metros após atravessarem o portal do museu, até que a jovem parando na frente do rapaz, ao lado de um espelho d’água, decidiu por fim, fazer aquilo a que se propusera mais cedo.
― Vince, eu tenho algo a dizer... ― ouvindo isto o jovem pareceu pressentir o que estava por vir.
― Prossiga... ― disse colocando uma das mãos sobre a bolsa-carteiro que carregava.
― Chegou a hora de seguirmos caminhos separados... ― começou a jovem com um sorriso triste.
― Mas por quê? O que houve? ― indagou o jovem parecendo magoado, e com milhões de teorias sobre traição surgindo em sua mente.
― Eu recebi algumas propostas de emprego... E estou indo para outro país. ― disse séria.
― Como assim? Por isso você passou o dia tão quieta?
― Minha boca esteve silenciosa enquanto minha mente tentava achar uma forma menos dolorosa de fazer isto... Não é porque existe outra pessoa... Mas é como eu te disse logo que nos conhecemos, sou semelhante aos esporos de um dente-de-leão, não nasci para ficar presa a algum lugar... Ou alguém... ― disse encostando a palma de uma das mãos no rosto do rapaz.
― Nem mesmo se eu te pedisse em casamento você seria capaz de reconsiderar e ficar? ― indagou Vincent, apertando uma caixa vermelha aveludada que agora jazia em sua mão.
― Se eu ficar, meus sonhos terão de ir sem mim. Se eu te pedir para me seguir, será egoísmo, pois sei que não há maneira de eu atender as suas expectativas. Você sabe muito bem disso... Largar tudo pelo que trabalhei e lutei seria a morte para mim. Você merece alguém que não viva frustrada ao seu lado... ― respondeu olhando no fundo dos olhos do outro.
― Mas você pretende seguir a vida sozinha para sempre? ― tentou argumentar o rapaz.
― Isso, Vincent, é algo que só o tempo dirá... Só o tempo... ― depositou um beijo demorado na outra face do rapaz e acarinhando a outra com a mão. Por fim, partiu sozinha, caminhando por entre as luzes da praça.
Vincent, incapaz de ver a garota que amava partir assim, acompanhou sua caminhada com os olhos através reflexo do espelho d’água, até que a imagem da moça deixou de ser refletida naquela superfície agora turva pela ação do vento.
Categories:

2 comentários:

  1. Que me desculpem os românticos
    mas trabalho dos sonhos > carinha com pedido de casamento

    Meu lado sádico havia pensando "apenas" em ela dizer não ao pedido, mas acho que essa resposta dela depois do "nem mesmo se eu te pedir em casamento?' foi ainda mais foda haha

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu escrevendo uma cena em que alguém leva toco de uma garota "boazinha"... Vai chover...

      E depois do "não nasci para ficar presa a algum lugar... Ou alguém..." ele pediu em casamento sabendo q ia levar outro toco... hahaha

      Excluir